ÍBIS ESTE É O PIOR TIME DO BRASIL

 

Não, eles não se ofendem. Há muito tempo seus jogadores e dirigentes admitem a fraqueza desta equipe que venceu apenas um jogo desde 1979, levando 258 gols e marcando apenas 21.

 

Não existe lei de acesso no Campeonato Pernambucano — e só isso explica o fato de o Íbis continuar lá, ano após ano, apanhando sempre e fazendo a alegria dos atacantes adversários, a ponto de alguém já ter sugerido que gol contra ele não devia valer na eleição do artilheiro. São goleadas para ninguém botar defeito: de 1973 até hoje, os três grandes do Estado — Náutico, Sport e Santa Cruz — lhe aplicaram nada menos que três 6 x 0, dois 7 x 0, um 8 x 0, dois 8 x 1, dois 9 x 0, dois 10 x 0, dois 11 x 0 e dois 13 x 0!

 

Pobre Íbis. Perde tanto que já ganhou até fama internacional, sendo citado numa reportagem sobre os 'sacos de pancada do futebol', publicada pelo jornal japonês The Daily Yomiuri em agosto de 1981 — e reproduzida, no inglês original, pelo Jornal do Commercio de Recife. Em seu currículo, há recordes para encher meio Guinness: de 1979 até a semana passada, o Íbis jogou 62 partidas, perdendo 54 e vencendo... uma! Tomou 258 gols... e marcou 21. Em 1979, uma safra especialmente ruim, fez apenas um gol — e foi um gol contra, marcado pelo zagueiro Cícero, do Sport, que ainda venceu por 8 x 1.

 

'Quando encostam os franzinos num canto, os valentões ficam mais valentes ainda', conforma-se o ferroviário aposentado João Martins, 53 anos, dono de uma pequena serralheria e uma modesta lanchonete. Ele é o técnico do Íbis, que treina todas as noites no campo de um colégio, pois não tem estádio — e sabe que não pode exigir muito mais de seus 'atletas', pois todos têm outros empregos ou afazeres durante o dia, já que seus contratos com o clube (na base do salário mínimo regional de 30 600 cruzeiros) valem apenas para oficializar o 'profissionalismo' obrigatório junto à Federação.

 

Na verdade, são amadores. 'Até hoje só recebi 5 000 cruzeiros', confessa o zagueiro central Canito, 29 anos, serralheiro. O Íbis tem ainda donos de lanchonete, estudantes, motoristas, um soldado da PM e um investigador de polícia.

 

Nos dias de jogo, eles chegam por conta própria ao estádio, onde sempre os espera na porta o técnico, que todos chamam de João Grandão. Atrás deles vem geralmente a Kombi da escola de propriedade de seu presidente, Ozir José Vieira Ramos, dono também de uma gráfica na vizinha Olinda, onde mora. Júnior, filho de Ozir e atualmente fora do time por contusão, é quem dirige a perua, que traz os uniformes e chuteiras — guardados na residência do cartola, pois o Íbis não tem sede.

 

Na verdade, o Íbis é Ozir Ramos, filho de um de seus fundadores, Onildo Ramos, e que rasgou o ofício em que o presidente da Tecelagem de Seda e Algodão de Pernambuco (veja quadro) pedia a desfiliação do clube da Federação, no final da década de 50. 'Nasci e fui criado dentro do Íbis, não podia deixá-lo morrer', relembra Ozir, 49 anos, com orgulho. Desde então, ele dirige o clube.

 

Em pé: Vieira, Jorge Luís, Róbson, Omar, Canito, Amaral e Gumercindo; agachados: Lúcio, Vicente, Fael, Aluísio e Nazinho. Abaixo, Júnior, Ozir e Omar.

 

Confira a matéria original em: https://placar.com.br/revista/edicao-688/ler/#p60